No emprego que tenho - directamente ligado às interacções humanas - lido com muitas pessoas. A maior parte delas são pessoas normais com quem se fala dois minutos e depois vão à sua vida. Há outras pessoas que só sabem gritar. Não passo uma semana sem que alguém arranje desculpa para me gritar ao telefone e houve inclusive uma vez em que me ameaçaram fisicamente. Não me assustou muito porque sei que há polícia aqui perto e essa pessoa não iria conseguir sair do edifício antes da polícia chegar, mas claro que mete sempre alguma impressão. Afinal de contas, isto é só um emprego e eu sou a pessoa que está mais abaixo no totem, aquela que só faz o que lhe mandam e ponto final.

Há outras pessoas que me ignoram por completo, o que me dá comichão sendo eu a pessoa que lhes abre a porta e diz "boa tarde" com um sorriso no rosto. Sabem aquele instinto que nós temos de ignorar as pessoas que nos ignoram, e basicamente tratar as pessoas como elas nos tratam? Eu não posso fazer isso. Por muito que alguém me ignore, me berre, e me acuse de coisas fictícias, eu tenho de sorrir e dizer que "com certeza, tem toda a razão" enquanto penso no quanto lhes devia cair um piano de cauda em cima.

Mas depois... Depois há senhoras velhinhas que se alojam no balcão e me contam a vida toda. Velhinhas que me lembram a minha avó, com aquele ar de bondade e paciência, velhinhas que me dizem que perderam o marido há 29 anos e sentem a falta dele todos os dias, que não há nada como um marido a quem contar tudo e que nem os filhos nem os netinhos adorados preenchem esse buraco. Velhinhas que me fazem querer chorar porque não imagino essa dor e não a quero para mim, mas se lhes dói assim tanto então o amor foi (e é) enorme com certeza. Velhinhas que me fazem querer abraçar o meu namorado e nunca o largar, dar-lhe muitos beijinhos e mostrar-lhe o quanto gosto dele e pedir-lhe por tudo que nunca saia da minha beira.

(Old Couple Paris by fabio Penna on flickr)

Há pessoas assim, que nos fazem pensar. E só por essas, vale a pena ter o meu emprego.